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Narrativa de Vampiro a Máscara: 20 anos


    Ato XI - Narrativa de Kiril: Malebolge

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    Danto
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    Ato XI - Narrativa de Kiril: Malebolge

    Mensagem por Danto em 7/7/2016, 03:07

    Minutos após a saída da Nosferatu dos seus domínios, o prometido realmente aconteceu. Sete homens adentraram a sua loja, todos com marcações específicas nos pulsos que simbolizavam o brasão do clã Nosferatu. Seriam eles que o alimentariam para que sua reserva de sangue fosse finalmente restabelecida, entretanto, quando a primeira gota de sangue adentrou a sua boca. Seus olhos se ofuscaram, uma luz branca profunda e densa como o leite o cegou por alguns instantes. Do pegajoso branco que o cegava, surgem visões efêmeras. Seu peito então se acelera e seu coração começa a bater, uma sensação de estar correndo em desespero sob a luz do sol devorava o seu intimo até o ponto do seu intimo desaparecer...



    Você corria desesperadamente em direção ao grande templo de Ísis, era necessário dizer as suas companheiras de culto sobre as trevas que circundavam a todos que naquele cidade residiam. O grande Deus Serpente estava pronto para agir contra os Deuses mais uma vez! Ele prometia grandes coisas, entre elas a vida eterna e poderes inimagináveis para seus fiéis seguidores. Mas segundo o próprio Horus, Set jamais poderia oferecer algo além das mais profundas e terríveis abominações da morte. Os contornos da cidade eram irrelevantes, as pessoas que olhavam para a sua pressa não recebiam a atenção dos seus olhos. Eles estavam focados essencialmente nas duas grandes estátuas da Deusa Ísis que eram esculpidas nas rochas. Duas estátuas idênticas da grande mãe segurando o pequeno Horus em seu colo. Aquelas grandiosas esculturas de pedra estavam postas à uma distancia exata de sete metros, nessa abertura era posta uma escadaria que levava para o interior da grande rocha. O templo de Isis era esculpindo pelo interior da rocha, os corredores, as salas de oração e adoração.
    Mas ao se aproximar, um pavor profundo adentrou seu peito e um grito lhe escapou pelos lábios. Seus olhos se arregalavam e sua visão se tornava tremula, imprecisa, confusa e apavorada.
    Você via corpos de homens atirados pelo chão, eram os protetores do templo, suas armas estavam quebradas, seus pescoços partidos, seus braços arrancados e suas pernas amarradas como cordas de canhamo. As bocas dos guardiões estavam abertas estacas de madeira estavam cravadas em suas gargantas, madeiras altas e finas que traziam em sua extensão mensagem de boas vindas à você, Kemintiri.
    Atordoada, você adentra o templo e seus joelhos se enfraquecem ao ver a imagem das suas irmãs de culto amarradas, amordaçadas, nuas e com seus corpos profanados por objetos pontiagudos de várias naturezas. Espadas, lanças, estacas, jarros e tudo que poderia ser utilizado para penetrar, atravessava o íntimo das mulheres. Todas estavam mortas, jogadas em poças de sangue que escorriam de suas intimidades. As expressões de dor em suas faces era dolorosa demais.
    Ele havia traído a própria palavra!
    Ele havia jurado! Ele havia prometido! Ele só retornaria em seis noites e essa era apenas a quarta noite!
    E lá estava ele, novamente de pé em um templo que não o pertencia. Corrompendo um sacro local que era de posses de outra divindade, com seus cabelos negros, um fragmento do ébano de nariz pontiagudo. Os olhos negros como uma pedra de onix exibiam um brilho amarelado doentio e suas pupilas eram rasgadas como as de uma naga. Ele abre os braços, de toda sua altura e poder. Ele oferece mais uma vez! E o desprezo lhe toma os lábios.

    -NUNCA!


    Você grita, dando as costas para o Deus da Corrupção. Correndo em total desespero, sua mente se esforça em negar o chamado do Deus Negro. Sua mente implorava para que ele a deixasse ir, implorava para que ele a deixasse sobreviver, para que ele não a amaldiçoasse com as dádivas obscuras que ele falsamente chamava de vida eterna. Durante a tentativa de fuga, você passa pelos quatro filhos do grande Deus Negro, três homens e uma mulher. O líder, o feiticeiro, a concubina e o guerreiro. Fechando os olhos, você ora aos Deus, clamando por ajuda.
    "Oh grande Hórus! Me salve desta perdição! Oh grande Hórus, eu dedico minha alma a ti!"

    A grande fúria ecoa. Ela range as estruturas de toda a cidade, derruba colunas do templo, fragmenta estátuas e esculturas. Rompe paredes e causa fraturas da profundeza de oceanos no chão. O Deus Negro da Corrupção se enfurece e avança contra você. Tomando-lhe pelos cabelos e tirando-a do chão. A dor é tão grande que os ossos da sua coluna se fragilizam e suas pernas tremem como varas verdes em uma tempestade. As presas da Grande Serpente então rompem a sua carne, era seu fim. Sua morte. Sua maldição. Você se tornaria um monstro como ele era...

    [Off: Teste de Consciência]
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    Re: Ato XI - Narrativa de Kiril: Malebolge

    Mensagem por King Jogador em 7/7/2016, 15:28

    Teste de Convicção
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    Re: Ato XI - Narrativa de Kiril: Malebolge

    Mensagem por Dados em 7/7/2016, 15:28

    O membro 'King Jogador' realizou a seguinte ação: Rolagem de Dados


    'D10' : 8, 10, 10, 9
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    Re: Ato XI - Narrativa de Kiril: Malebolge

    Mensagem por King Jogador em 9/7/2016, 00:29


    O frio em meu pescoço. Como arde. É o ar de uma geada perfurando meu corpo. Sinto a trepidação correndo dês do ponto do impacto até a ponta dos meus pés descalsos, os quais se contorcem. Estou levantada e indefesa. Meus cabelos puxados revelam o ponto fraco que permite aquele frio entrar. Mas não é o frio que me mata e sim a corrpção que vem com ele. Como ele pôde? Porque não apenas me matara a sangue frio? Já estaria agora seguindo Anubis para meu encontro com Isis. Mas não, a serpente negra almeja minha umilhação acima de tudo. Apenas porque eu o reneguei, só que ele se engana se minha opinião um dia mudará. Minha devoção é apenas para ela e apenas por ela será. Minha deusa mãe.

    Espera... Que pensamentos são esses? Eu estou pensando isso! Eu estou aqui! Esse é o passado de Kemetiril! Essa é sua lembrança, seu legado. Ela realmente permitiu que eu visse com meus próprios olhos o destino dela? A sina eterna ela? Mas é mais que ver com meus próprios olhos. Eu sinto em minha carne e em meu sangue. Minha vida se esvai lentamente. Mesmo podendo levemente sentir vida dentro de mim novamente. Inflo meu pulmão, pela última vez sem dúvida. A tragada daquele ar antigo me tras lembranças de uma vida que nunca vivi. Mas que parecem fazer mais parte de mim que minha própria história. Este é o momento mais marcante de minha jornada. E preciso tirar um significado disso. Afinal ela permetiu que eu compartilhasse de sua maior dor e humilhação. Devo dar para ela toda a força que eu mesmo possuo. Que meu norte de justiça à guie.

    Não adianta pensar como um velho feiticeiro. Preciso entender essa lembrança, essas memórias. Isis... Porque não ajudara ela? Porque não me ajuda agora? Porque deixou esse ser nefasto tirar minha vida?! Já não sinto minhas pernas. Por mais que tento balançá-las. Até meus braços se mostram fracos. Se eu tivesse força para esganar essa serpente esguia... A presa dela é fina e profunda, típica da megera que sempre se mostrou ser. Mas não adianta nutrir ódio para combatê-lo agora. Nem tão cedo. Esse não é o caminho de Isis. Essas memórias explicam para mim com clareza o que essa deusa realmente é. Ela é a mãe que traz a vida para o mundo. Logo meu papel não é ser a nemesis desta serpente maligna. Mas a mãe de todos aqueles que ousarem desafiá-los. Esta é minha verdadeira sina. Minha missão.

    Se mexer é praticamente impossível. Apenas o foco de meus olhos ainda mantênho. Por mais que esses só apontam para a estátua rachada da deusa que acabo de decidir qual será minha nova servidão para com a mesma. Nesse momento só a morte me aguarda. Mas não a aceito de braços abertos, tento manter meus punhos fechados e faço força em minha garganta para que minha voz supere o som de tosse e sangue escorrendo em minha boca. Mudo a mira de minha visão para o ser nefasto que permanecia me destruindo. O medo é menor que minha determinação. Assim eu falo. Não em desafio, mas como uma profecia. Mesmo que as palavras quase morrem na ponta de minha língua.

    - Hoje é o dia de seu erro... Har... Não será hoje ou amanhã ou sequer no próximo milênio... Arr... Mas haverá um dia que você estará fraco demais para ficar de pé e irá se ajoelhar contra a justiça inexorável. E eu estarei neste dia lhe acompanhando...
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    Re: Ato XI - Narrativa de Kiril: Malebolge

    Mensagem por Danto em 13/7/2016, 16:43

    Suas palavras foram jogadas no ar, ignoradas pela grande serpente e seus filhos. Mas elas foram ouvidas pelo grande espírito do tempo, o mais poderoso de todos os espíritos, aquele cuja força é o agora, o ontem e o futuro. Aquele que é sem ser e existe sem ser visto. O ecos da profecia alcançariam dimensões inesperadas e transcenderiam todas as formas e conceitos.

    O sangue que corria em suas veias secava, seu corpo frágil dava o último sopro de vida. Nesse segundo, o antigo a colocou no chão e despejou uma única gota de vitae em seu lábios, essa gota suavemente escorreu pela sua boca aberta. Sua visão ficou turva, seu coração parou. A horrível sensação da corrupção inundando seu corpo, destruindo suas entranhas. Era o fim da vida e o começo do pesadelo infinito.

    Seus olhos então se abriam novamente, você estava jogado dentro de uma prisão esculpida nas rochas. Não havia nada dentro da sua cela, nenhuma cama, nenhuma cadeira, nada. Haviam apenas pedras tão duras quanto o aço, enegrecidas por algum tipo de encantamento e uma porta feita do mesmo material petrificado com uma única fissura na parte superior que permitia a entrada de uma faixa de luz avermelhada, talvez resultante de tochas que iluminavam o exterior. Ou simplesmente uma luz mágica para eliminar a certeza da passagem temporal.

    Fome era a segunda sensação que lhe devorava a mente. Uma desesperadora necessidade de se alimentar, uma sede que ardia a garganta e secava os lábios. Ela não sabia o que era, mas você sabia perfeitamente, era a fome de vitae da besta cainita. E a besta logo dominava o corpo dela, primeiro a fúria que tentava destruir todas as paredes, depois o medo escarlate de ficar eternamente aprisionada... E assim a tortura se seguiu, você foi capaz de contar até a milésima noite, ela se perdeu na casa das centenas.

    Essa prisão era muito pior do que a prisão que foi sua casa em Berlim durante vários anos, não haviam visitas, não haviam torturas, existia apenas a mais profunda e desesperadora solidão. No fim da milésima noite, você olha para o lado e vê a prisão de um ponto de vista diferente. Você não estava mais dentro do corpo dela, você estava ao lado dela na mesma prisão. A grandiosa Kemintiri estava jogada no chão, encolhida em posição fetal, a beleza incomparável estava irreconhecível e ausente. Os cabelos pegajosos devido aos ataques de fúria e a aglomeração de terra. O corpo magro e esquelético por causa da privação de vitae, haviam claros sinais de torpor em alguns músculos inferiores. E o mais terrível eram os olhos, mortos, vazios e profundamente apáticos.
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    King Jogador

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    Re: Ato XI - Narrativa de Kiril: Malebolge

    Mensagem por King Jogador em 20/7/2016, 18:03

    Kemetiril... Eu sinto sua dor. Sinto sua fome, esta faminta e incansável fome. O medo eterno de ser dominado pela mesma. Sua dor corre por cada célula do meu corpo. Transborda a minha mente e jamais irá embora. Afinal suas lembranças agora são minhas também. Estamos conectados pela mesma dor, esta infernal e eterna dor. Seu sofrer agora é meu também, esse fardo que carregarei por toda a eternidade. Um elo inquebrável que senti por todas estas noites de carcere sendo talhada em meu espírito.

    Vós já não conta mais, entretanto cada dia é contado em minha mente. Dois anos, oito meses e vinte e sete dias. Mil dias de confinamento. Meu carcere durou cento e vinte e sete anos, precisamente quarenta e seis mil trezentos e cinquenta e cinco dias. Anos são como dias no carcere de um cainita. Entretanto meu confinamento foi concedido com o apoio de tomos e livros. Sem falar de uma frequente alimentação por ratos e uma ocasional de vitae. Não posso reclamar do meu luxo quando colocado em comparação por mil dias sem alimento.

    Set é cruel, ardiloso e ambicioso... Ele quer mais que apenas torturar a sacerdotisa. Ele quer transformá-la em um monstro, em seu monstro pessoal. Arrancar sua humanidade para todo e todo o sempre. Estou agora presenciando a morte de um espírito dedicado para com Isis. Quando esta tortura terminar haverá aqui apenas uma besta que será facilmente domesticada pela grande serpente. Um dia poderá ganhar sua própria liberdade. Mas nunca mais será aquela que rezava aos deuses por justiça. Será apenas mais um monstro andando pelas noites eterna.

    Cada noite que vós passa aqui é a morte de uma parte de ti. Como se cada noite nova de sede fosse a morte uma virgem. Mil virgens já morreram. Só que agora basta. A corrupção não pode ganhar, a antiga serpente não pode conseguir o que busca. E não conseguirá, pois algo não estava em seu planejamento. Eu estou aqui. Mesmo que o corpo dela esteja fraco o suficiente para eu prosseguir a sentir a sua dor por dentro, eu ainda compartilho de sua dor. Minha empatia transcendeu para sempre. E agora salvarei a alma desta virgem, chega da morte de sua pureza. Haverá um basta para a corrupção latente.

    Esta morte de sua pureza me lembra de um conto árabe muito contado para mim nas noites nos acampamentos do exército do sultão. A longa e epopeica saga de Sherazade, a virgem que após a morte de mil outras virgens conseguiu poupar sua própria pureza para sempre. O demônio que havia casado com ela planejava matá-la, mas a mesma o entreteve por mil e uma noites. Na última noite o seu esposo havia se apaziguado e decidiu não executar a rainha. Esta analogia serve para Kemitiril e sua besta. Não posso deixar que a besta a consuma, preciso apaziguá-la. Preciso impedir que seu monstro interno destrua sua humanidade.

    Minha consciência ainda está aqui. O que significa que a mente da sacerdotisa ainda está ativa em algum nível, o suficiente para poder me ouvir. Preciso passar minha palavras para ela. Agora não basta apenas entender sua dor, preciso compensar a mesma. Mantê-la entretida. Dar forças para combater a fome. Preciso passar meus sentimentos para ela, mais que apenas recebê-los dela, uma conversa de alto nível empático deve ocorrer. Ela têm de me ouvir, não pelas minhas palavras, mas o significado atrás delas. Pelo sentimento que imponho nas mesmas.

    Esta é a única forma agora capaz para mim de ajudá-la. Permiti-la lutar contra a besta interna. Dar para ela forças para se manter sã. Salvar a sua consciência. Assim devo mantê-la entretida, absorvida em sentimentos além de sua própria sina. Para poder então preservar dentro da mesma algum pedaço de sua humanidade perdida. De tal forma sendo, como Sherazade fez, irei contar para a mesma mil histórias. Sempre postergando o conto até o dia seguinte, nunca dando espaço para que a fome seja o único pensamento em sua cabeça. Só assim para que a grande serpente não ganhe mais um peão em sua luta pelas trevas. Um pilar estável e concreto na cruzada contra o Deus da Corrupção. Como um dos próprios pilares de Djed construído em sua mente e talhado pela sua alma.

    Me aproximarei com calma da antiga. A olho com um ar pura de empatia, de compreensão, de todos os sentimentos mais profundos que deram para mim meu norte. Devolverei para mesma aquilo que ela me deu, minha própria sanidade. Minha bússola interna. A acaricio com minha alma quando começo a falar. Falo para sua mente e nada mais. Palavras calmas, como a de uma mãe para seu filho quando vai contar uma história para o mesmo repousar. Isso mesmo, sem magias profundas ou encantamentos postergados, apenas histórias. Contos, fábulas, lendas. Palavras com profunda empatia para adentrar na alma. As envio para ela em um tom lento e calmo. Pois possuo todo o tempo do mundo para passar para ela mil histórias.

    Primeiro Conto:
    Conta-se, ó piedosa Kemetiril, que viveu noutro atemporal tempo, um mercador que possuía grandes riquezas e negócios em diversos países. Um dia, montou seu melhor cavalo e dirigiu-se a um desses países. Atravessou um grande deserto em sua jornada. Cansado, achou um oasis ao qual usou para recuperar as energias, sentou-se sob uma árvore para descansar e alimentar-se. Ao comer tâmaras, lançava ao longe os caroços. De súbito, apareceu um enorme Afrit, um espírito imaterial das dunas. O mesmo se aproximou dele, brandindo uma grande cimitarra e gritando: "Levanta-te que te mato como mataste meu filho!" Assustado, perguntou o mercador: "Quando e como matei teu filho?" Rapidamente respondeu o Afrit: "Quando atiraste os caroços, um deles atingiu meu filho no peito o qual descansava na forma de um insecto, e ele morreu na hora".

    Vendo que não tinha outro recurso, o mercador disse ao Afrit: "Fica sabendo, ó grande Afrit, que sou um crente que nunca falto à minha palavra. Possuo riquezas e filhos e uma esposa e inúmeros depósitos a mim confiados. Concede-me, pois, um prazo para que me despeça de minha família e distribua a cada um o que lhe é devido. Prometo voltar aqui no primeiro dia do ano, e tu disporás de mim como quiseres". O gênio confiou no mercador e deixou-o partir.

    Em casa, ele pôs em ordem suas obrigações, distribuiu suas riquezas e revelou a parentes e amigos a triste sorte que o esperava. Todos choraram, mas nada podiam fazer. No primeiro dia do ano, voltou ao lugar do encontro como prometera. Sentou-se a chorar sobre sua sorte quando apareceu um xeque venerável conduzindo uma gazela presa. "Por que estás sozinho neste lugar assombrado pelos gênios?" Perguntou ao mercador. "E por que estás chorando?" O mercador contou-lhe a história. "Por Alá". Retrucou o velho. "Teu respeito pela palavra dada é coisa rara, e tua história é tão prodigiosa que se fosse escrita com uma agulha no canto interno dos olhos, seria matéria de meditação para os que refletem".

    O nobre sentou-se, dizendo que ficaria lá até ver o que aconteceria. De repente, apareceu um segundo xeque, conduzindo cães lebréus pretos. Saudou o mercador e o primeiro xeque e perguntou-lhes: "Que fazeis neste lugar assombrado pelos gênios?" Contaram-lhe a história, e ele também disse que esperaria lá para ver como acabaria essa curiosa aventura. Logo em seguida chegou um terceiro xeque conduzindo uma mula. Saudou a todos e quis saber o que estavam fazendo naquela terra perigosa. Repetiram toda a história, e ele também se sentou para aguardar os acontecimentos.

    Momentos depois se levantou um turbilhão de poeira, e o gênio apareceu com um gládio afiado na mão desta vez e os olhos soltando chispas flamejantes. Agarrando o comerciante, disse-lhe: "Vem que te mato como mataste meu filho, que era o sopro de minha vida e o fogo de meu coração”. O primeiro xeque, mestre da gazela, criou coragem, beijou a mão do gênio e disse-lhe: "Ó grande gênio, o mais elevado entre os reis dos gênios, se eu te contar a história desta gazela e ficares maravilhado, conceder-me a graça de um terço do sangue deste mercador?" O gênio concordou, e o xeque começou sua história:

    - Ó grande Afrit, esta gazela era a filha de meu tio. Casei-me com ela quando éramos bem jovens e vivemos juntos trinta anos. Mas Alá não nos concedeu filho algum. Por isso tomei uma concubina que, com a graça de Alá, me deu um filho varão lindo como a lua nascente. Quando atingiu quinze anos, tive que viajar a negócios. Ora, a filha de meu tio fora iniciada na feitiçaria desde a infância. Aproveitando minha ausência, transformou meu filho num bezerro e a mãe dele numa vaca, e juntou-os a nosso rebanho.

    - Ao voltar, perguntei por eles. Minha esposa respondeu que a mulher morreu e meu filho havia fugido para onde ela não sabia. Um ano inteiro fiquei chorando, o coração reduzido a pedaços. No Dia do Sacrifício, pedi a meu pastor que me trouxesse uma vaca gorda. Trouxe-me a vaca que havia sido minha concubina. Mal me aproximei dela para matá-la, pôs-se a gemer e chorar. Parei, e pedi ao pastor que a degolasse. Este cumpriu a ordem, mas não encontramos na vaca nem carne nem gordura, mas apenas pele e ossos. Tive remorsos, inúteis como a maioria dos remorsos, e pedi ao pastor trazer-me um bezerro bem gordo. Trouxe-me meu próprio filho enfeitiçado.

    - Quando me viu, rebentou a corda e jogou-se a meus pés com gemidos e lágrimas. Tive pena dele e ordenei que fosse substituído. Mas a malvada filha de meu tio disse que devíamos sacrificar este bezerro mesmo. Afinal estava gordo como me convinha, disse ela. Obedecendo a não sei que instinto ofereci, antes, o bezerro de presente a meu pastor. No dia seguinte, o pastor procurou-me e disse: "Vou revelar-te um segredo que te alegrará e me valerá sem dúvida uma recompensa." "O que é?" perguntei. E ele respondeu "Minha filha é feiticeira. Ontem, quando me deste o bezerro, levei-o para a casa de minha filha. Mal o viu, cobriu o rosto com o véu e censurou-me dizendo "Pai, agora estás me expondo aos olhos de homens estranhos?". Perguntei: "Onde vês homens estranhos" Ela respondeu: "Este bezerro é o filho de nosso amo, mas está encantado. E foi a mulher de nosso amo que o encantou, ele e a sua mãe!" Fui imediatamente com o pastor à casa de sua filha, e perguntei-lhe se é verdade o que contara ao pai acerca desse bezerro. E sim ela disse.

    - "Ó gentil e compassiva adolescente, se libertares meu filho, dar-te-ei todo meu gado e todas as propriedades que teu pai administra". Eu falei, para ela sorri e responder: "Ó amo generoso, aceitarei estas riquezas com duas condições, que me cases com teu filho e que me permitas enfeitiçar tua mulher. Sem isso, não tenho a certeza de poder prevalecer contra as suas perfídias. "E que assim seja". Eu completei. Ela apanhou então uma bacia de cobre encheu-a de água e pronunciou conjurações mágicas. Em seguida, aspergiu o bezerro com a água, dizendo-lhe: "Se Alá te criou bezerro, permanece bezerro, mas se estás enfeitiçado, volta a tua forma verídica, com a permissão de Alá." Após tremer e agitar-se, o bezerro recuperou a forma humana. Era meu filho! Joguei-me em seus braços e cobri-o de beijos. Depois casei-o com a filha do pastor, e ela encantou a minha esposa e metamorfoseou-a nesta gazela.

    "Bem espantosa, a tua história". Bradou o Afrit. "Concedo-te o terço do sangue deste ser maligno então". O segundo xeque adiantou-se então e disse: "Ó rei dos gênios, se te contar a história destes dois cachorros e a achares tão espantosa quanto a da gazela, conceder-me-ás um terço do sangue deste homem também?". "Pode falar então", disse o Afrit. E assim ele começou.

    - Saberás, ó senhor dos reis dos gênios que estes dois cachorros são irmãos meus. Quando nosso pai morreu, deixou-nos três mil dinares. Com a minha parte, abri uma loja e comecei a comprar e vender. Meus irmãos preferiram a aventura e viajaram com as caravanas por um ano inteiro. Quando voltaram, tinham desperdiçado todo o seu capital. Estavam pobres e tinham aspecto lamentável. Tive pena deles. Mandei-os ao maior mercado próximo, comprei-lhes roupas finas e, pondo meu capital de lado, dividi com eles em igualdade, todo o lucro daquele ano.

    - Moramos juntos por muito tempo. Mas de novo queriam partir e insistiram para que fosse com eles. Embora os resultados de sua primeira viagem não fossem alentadores, consenti em acompanhá-los com uma condição: dividir o dinheiro que tínhamos, 6 mil dinares, em duas partes iguais. Deixar a metade escondida para nos amparar em caso de necessidade e partilhar a outra metade entre nós três. Concordaram e agradeceram-me. Com os 3 mil dinares, compramos as mercadorias mais indicadas, alugamos um navio, e embarcamos. Após viajarmos um mês, chegamos a uma cidade portuária onde vendemos nossas mercadorias com um lucro de dez por um.

    - Quando voltamos ao porto para embarcar, encontramos lá uma mulher mal vestida que se aproximou de mim e beijou-me a mão, dizendo: "Mestre, aceitas ajudar-me e me salvar? Por favor, casa-te comigo e me leva, e tudo farei para agradar-te." Aceitei. Levei-a para o navio, vesti-a com esmero e partimos. Pouco a pouco fui tomado de um grande amor por ela. Não conseguia separar-me dela nem de dia nem de noite, e preferia sua companhia à de meus irmãos. Por sua vez, revelou-se uma mulher linda, inteligente, devotada e de nobre caráter. Infelizmente, meus irmãos me invejavam cada dia mais e, uma noite, quando estava deitado com minha mulher, insinuaram-se em nosso aposento, apanharam-nos e jogaram-nos em alto mar. Minha mulher despertou nas águas e, de repente, transformou-se numa Afrita e carregou-me nos ombros até uma ilha.

    - Depois, desapareceu e só voltou na manhã seguinte, ainda mais bela, e disse-me: "Não me reconheces? Sou tua esposa. Como vês, sou uma Afrita. Amei-te desde o primeiro instante em que te vi. Tiveste pena de mim e te casaste comigo. Agora salvei-te da morte com a permissão de Alá. Estamos quites. Quanto a teus irmãos, sinto-me cheia de ódio contra eles e vou afundar o navio em que estão e matá-los." Muito me custou convencê-la a não os matar. Carregou-me então nos ombros, ergueu-se no espaço e depositou-me em minha casa. Retirei os 3 mil dinares de seu esconderijo, reabri minha loja e comprei novas mercadorias.

    - Quando voltei para casa, achei estes dois cachorros presos num canto. Ao me verem levantaram-se e começaram a chorar e agarrar-se às minhas vestes. "São teus irmãos" disse minha mulher. "Pedi à minha prima, que é mais versada em encantamentos do que eu, para dar-lhes esta forma, da qual só poderão libertar-se daqui a dez anos." E é por isto, ó poderoso gênio, que se encontra neste lugar. Estou a caminho da morada daquela prima de minha mulher a quem vou pedir que restitua a meus irmãos sua forma anterior, pois os dez anos já decorreram.

    Exclamou o Afrit: "Tua história também é surpreendente. De coração, concedo-te mais um terço do sangue deste maldito. Mas vou tirar-lhe o terço que me é ainda devido”. O terceiro xeque, o da mula, interveio então dizendo: "Ó grande Afrit, se te contar uma história ainda mais maravilhosa que essas duas, conceder-me-ás o último terço do sangue deste homem?" O Afrit, que gostava muito de histórias raras, acedeu, dizendo: "Qual é a tua história?" O terceiro xeque falou:

    - Ó sultão e chefe de todos os gênios, esta mula que vês aí é minha esposa. Uma vez, tive que fazer uma longa viagem, e quando voltei, certa noite, achei-a deitada com um escravo negro na minha própria cama. Estavam conversando, rindo, beijando-se e excitando-se mutuamente com pequenos jogos. Assim que me viu, lançou sobre mim uma água mágica que me transformou em cão e me expulsou de casa. Saí a perambular pela cidade. Um açougueiro apanhou-me e levou-me para sua família. Assim que a sua filha me viu, cobriu a face com o véu e censurou o pai por expô-la a um homem estranho. "Onde vês homens?" perguntou o pai. Ela respondeu: "Este cão é um homem. Uma mulher o enfeitiçou, e eu sou capaz de libertá-lo.". " Liberta-o, então, minha filha, pelo amor de Alá".

    - Ela pegou uma vasilha de água, pronunciou certas palavras mágicas sobre a água, aspergiu-me com algumas gotas e disse: "Sai desta forma e retoma tua forma primeira". Logo, voltei a ser homem e, beijando a mão da rapariga, disse-lhe que desejava muito que minha mulher fosse enfeitiçada do modo como me enfeitiçara. "É fácil", disse a filha do açougueiro. E deu-me num vidro um pouco da água que usara para me salvar, dizendo: "Se encontrares tua mulher adormecida, borrifa-a com esta água, e ela tomará a aparência que tu indicares." Fui para casa, encontrei minha mulher dormindo, aspergi-a com a água mágica, dizendo-lhe: "Sai dessa forma e toma a forma de uma mula." Num instante, transformou-se numa mula, como podes verificar, ó sultão e chefe dos reis dos gênios."

    O Afrit virou-se para a mula e perguntou: "É verdade?" Ela abanou a cabeça como para responder: "Sim, é verdade”. Ao escutar essa história, na qual o mal era punido, o gênio estremeceu de emoção e prazer. Afinal todos aqueles homens se mostraram tanto benevolente quanto justos, aplicando suas justiças de forma precisa e as honrando até o fim. Mesmo passando grande pesares, mantiveram o mal ao seu lado, apenas o punindo de forma cármica. assim o grande gênio concedeu ao xeque a graça do último terço do sangue do mercador. O mercador, muito feliz, agradeceu aos três xeques e ao Afrit. Os xeques o felicitaram por sua salvação. E cada um voltou para sua terra.
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    Danto
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    Re: Ato XI - Narrativa de Kiril: Malebolge

    Mensagem por Danto em 22/7/2016, 02:54


    Os contos eram ditos e nenhuma reação era esboçada, nada. O Grande Deus da Corrupção parecia ter vencido aquela batalha, a fraca herdeira de seu sangue não desejava nada, não possuía e não se levantaria. E assim foi até a milésima primeira noite começar, nessa noite você despertava para ver a mulher sentada a observar as grades da grande porta de pedra, ela estava extremamente magra, fraca e desnutrida pela falta de sangue, mas apesar de toda a fragilidade física, ela estava com os olhos esverdeados de puro ódio.

    -Outra vez. Novamente você. Em nosso único encontro físico eu prometi a tua libertação e a libertação da tua cidade, mas agora chego a conclusão que em nosso primeiro encontro físico eu apenas aceitei vossa ajuda. Os ventos finalmente chegaram, minhas promessas serão cumpridas, finalmente é a minha hora. Milhares de noites, eu atravessei. Milhares de milhar, eu atravessei. Milhares de vidas, eu ceifei. Milhares, Centenas, Dezenas, Milhões. Banida para o mais terrível dos martírios, uma eternidade como um monstro morto-vivo. Presas, garras, sangue e fúria. E finalmente eu volto aos primórdios, eu sempre busquei pelos fragmentos, pelos artefatos, chaves e respostas. E todo esse tempo eu sempre soube. Eu sei. Graças a vossa pertinência e inocência. Graças a tua honra e fidelidade. Oh pequeno e jovem Kiril, como eu desejo que tua morte chegues para reencontrar vossa alma e torna-lo finalmente meu filho de sangue. Serás minha primeira e única prole, meu primeiro e único companheiro, meu filho, sangue de meu sangue... Veja com seus próprios olhos, pois foram eles que me iluminaram quando eu já havia desistido de tudo. Veja minha ascensão e lembre-se minha criança, esperança é apenas uma ilusão. O destino está traçado e as ilusão se esvaem em sua presença.

    Ela se coloca de pé, caminha calmamente até a porta com todo o resplendor que sua aparência divina possuía, colocando as duas mãos contra a pedra ela rompe a montanha. A parede inteira que construía a frente de sua prisão se fragmenta em farelos, o som de vários homens correndo em direção à sua Senhora é ensurdecedor. Como uma manada de elefantes, eles marcham pelos corredores superiores e caindo pela fissura criada na rocha, com suas lanças e escudos, eles avançam contra ela.

    Por muito milênios os feiticeiros e estudiosos do sangue de Caim refletiram e filosofaram sobre as possibilidades dos poderes reais do Grande Pai Negro, muitos temerosos criaram teorias sobre o fim dos tempos, quando os seres que caminhavam no mundo antes do diluvio emergiriam para devorar suas crias. Todos se perguntam o que seriam os Primeiros Cainitas, os seres da Primeira e da Segunda cidade. O limite de suas forças, o alcance de suas vontades, o poder de suas feitiçarias. Todos estavam muito longe da verdade, a verdade se manifestava na frente dos seus olhos: Não haviam limites. Os carniçais de quase dois metros de altura, criados pelo vitae de Seth, se transformavam em migalhas, em poças de sangue e em sacos de carne triturada em frações de segundos. Sua pele brilhava como o mais puro ouro, seu tronco se expandia e se bifurcava em duas enormes cabeças de serpente. Os carniçais eram destruídos brutalmente apenas pela visão daquela monumental criatura, em frente aos seus olhos estava a própria Uraeus, a grande serpente de Wadjet, simbolo sagrado de todos os Faraós. Um avatar da própria Wadjet, a Grande Deusa do Egito. E quanto não haviam mais homens para lutar, pela fenda enorme da rocha, desce o primogênito do Deus da Corrupção, o Guerreiro.

    -Eu, Nakhthorheb, a destruirei! Traidora! Pária! Escória!

    Com sua lâmina negra, o grande Guerreiro de Set avança contra Kemintiri e o choque de suas vontades destrói completamente a rocha que estava acima de suas cabeças. Uma enorme cratera surgia nas areias do Saara. Uma região que no futuro se chamaria Qattara, fora moldada pela luta entre os dois semi-deuses. E você pode apenas presenciar a batalha, a serpente de ouro contra o guerreiro da corrupção. Os golpes eram tão poderosos que faziam a terra ceder, tão poderosos que faziam a água verter do grande deserto. Grandes ravinas eram criadas e a cratera aumentava de tamanho, a água era tingida de vermelho e ambos desaparecem no próprio mar de sangue que haviam criado dentro da cratera. Ela então emerge, linda como uma benção de todos os Deuses. Cabelos negros ondulados, pele caramelada, olhos esmeralda, empunhando a lâmina de seu rival. Ela sorria com orgulho enquanto caminhava na sua direção.

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    Re: Ato XI - Narrativa de Kiril: Malebolge

    Mensagem por King Jogador em 24/7/2016, 15:35


    O destino não é inexorável. Ele é volátil. A história pode ser rescrita quantas vezes for necessário. O mundo se recria milhares e milhares de vezes. Mas existe um caminho premeditado para aqueles que ousam desafiar as linhas da realidade. A jornada da Sacerdotisa por seus pilares de Osíris a levou para o próprio passado de sua alma. E só aqui sua meta poderá ser completada. Reescrevendo o livro do destino. Esta batalha das duas serpentes nas dunas eternas já deve ter acontecido milhares de vezes no ciclo infinito do tempo. Mas agora é a hora do basta.

    - A inocência é mais que reles ignorância. É uma escolha, uma árdua escolha. Vós me deu forças para fazer essa escolha e abandonar o sadismo que corrompia minha alma. Agora eu pude retribuir o favor criando nosso próprio paradoxo. E finalmente completando o círculo eterno contra a corrupção.

    Aproximo da grande vitoriosa da cratera de Qattara. A poeira cobre o ar morto do deserto. Reflito por um instantes nas estrelas daquela noite e tudo que elas presenciaram por tantos milênios. A sabedoria deles é infinita. Minha alma se sente completa, como se minha grande tarefa tivesse finalmente sido iniciada. Havia conseguido ajudar a apaziguar a dor daquela que a tanto eu devia.

    - Eu e vós Kemintiri estamos ligados pelo destino, pela dor, por nossas almas e pelo próprio paradoxo. Mas resta o quinto e último elo, o sangue.

    Pela primeira vez me ajoelho para a sacerdotisa. Mas não de forma serviçal. Ajoelho como um humilde crente se ajoelha para seu deus. Entretanto sem servi-lo por medo. Não abaixo minha cabeça, a olho diretamente em seus olhos. Como se estivesse tentando ver o reflexo de minha alma em sua visão. Abro os braços, como um homem que aceita seu destino. E então completo.

    - Suplico a vós, me permita abandonar as ilusões e servir à causa contra a corrupção pela minha eternidade. Reescreva a história. Eu aceito vós mais do que minha deusa ou o meu sol. Eu lhe aceito como minha própria mãe.
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    Re: Ato XI - Narrativa de Kiril: Malebolge

    Mensagem por Danto em 28/7/2016, 16:03


    A mais bela dentre todas as deusas parava de caminhar quando chegava na sua frente, levando as mãos até a sua face, segurando com firmeza as maçãs do seu rosto ela sorria. Os olhos de vocês se encontravam, os olhos da deusa serpente e os olhos do guru de Berlim. Inclinando o corpo para frente, a sua Senhora se aproximava da sua face, os cabelos longos e ondulados dela tocavam seus ombros e assim ela finalmente retomou a fala.

    -Asas negras, abertas ofuscando a lua cheia no mais alto dos céus estrelados. A grandiosa ave de rapina pousa sobre o crânio rachado de uma face impura, sórdida e amaldiçoada. O vento toca sua pele, ele é frio e cruel como o foice de um ceifador. As gotas de sangue escorrem pelas suas mãos feridas, cortadas pelo fio de uma navalha traiçoeira. O verde dos campos a sua frente, belas planícies de sua terra natal, são devoradas pelo fogo. As labaredas são tão fortes que as gramas se tornam cinzas, cinzas como o cimento e as rochas derretem e escorrem pelo vale, como o asfalto da cidade grande faz todos os dias. A poderosa ave de rapina corta os céus em seu voo selvagem, livre e forte. Ela circunda as suas proximidades, impedindo a sua visão completa e perfeita da luz do luar de verão. O fogo se intensifica, o barulho de tanques de guerra e tropas, tiros e explosões. Uma grande guerra esta a caminho e os inimigos estão próximos. A poderosa ave de rapina pousa a sua frente, seus olhos ardem por causa das chamas incandescentes, marejados de sangue eles se fecham. Eles novamente se abrem, a sua frente, dois corvos. E a visão em preto e branco da cidade de Berlim em escombros, ruínas e desespero está ao fundo dos dois corvos... Diga-me, meu filho, herdeiro das minhas visões, do meu sangue e do meu destino, quais são os dois corvos que eu devo salvar da destruição de Berlim?

    [Off: Ultima ação para o final do ato]
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    Re: Ato XI - Narrativa de Kiril: Malebolge

    Mensagem por King Jogador em 28/7/2016, 18:10

    - Minha mãe... Eu vivi seus piores momentos, suas maiores desolações, duas vezes, e lhe ofereci em troca a puresa de minha alma. Não a ofereci por almejar nada de vós. A ofereci apenas pois me indentifiquei com vós e senti que era o certo a se fazer. A dor cria a justiça e nosso senso de justiça foi criado por essa dor. E assim eu lhe dei forças em Ur da mesma forma que lhe dei esperanças em Qattara. Nada eu pedi em troca, entretanto o coração de uma mãe é sempre generoso. E assim sendo vós ofereceu para mim um presente que jamáis imaginaria receber. A dádiva da paz, do perdão e do feliz para sempre. Sua generosidade ancestral é a semente que criou a bondade no mundo.

    - Dois corvos devo escolher. O primeiro é um nome que vêm em minha alma mais rápido que a luz. Eu conheço sua história minha sacerdotiza. Como Cretheus disse, só houve um homem que lhe trouxe paz de espírito. Um ser que acabou com seu ódio e lhe deu um propósito, Mithras. E da mesma forma que ele lhe deu um caminho através da fúria, houve o mesmo para mim. E o nome dessa pessoa é Katarina Kornfeld. Ela possui muito parecido com vós. Uma jovem que perdeu seu destino nas mãos de um corrupto ser abraçado pelo ódio. O amor que havia em seu coração virou cobiça por poder. E eu senti esse amor, esse amor me deu o meu caminho. E esse amor é o primeiro corvo que escolho. Não é a Katarina de agora que deve ser salva. Mas a princesa Katarina Kornfeld de Bucarest de 1497. Logo após seu abraço por Gustav. É essa pura alma que peço que vós dê liberdade. A liberte do começo de seu carcere, para que ela possa viver na terra que nós dois sempre amamos. A Bulgária banhada pelo Mar Negro. E quem sabe um dia nos conhecermos e unirmos nossas almas como vós fez com o heróico Mithras. Esse é o corvo que lhe peço, uma mudança das linhas do destino, transforme o agora numa ilusão e traga um novo distino para aquela que eu amo, não o amor que tenho por ti minha mãe, mas o amor que tenho por uma companheira. Uma alma gêmea.

    - O segundo pedido... Sinceramente a cidade de Berlim apenas significou dor em minha vida amaldiçoada. Mas eu vi a dor de muitos que lá viveram. E o destino delas é apenas as chamas eternas e finais. Isto não está certo, não é justo, não é o caminho. Se vós realmente me provê um segundo nome para sobrevicer às chamas do ódio desta cidade já fiz minha escolha. Seguro em minhas mãos um artefato milenar com uma rachadura. A rachadura do ódio de Gustav Breidenstein.bl Esse ódio ceiou a primeira centelha que destruiu esta cidade lentamente e levará até o último pó de cinza. Agora que abdico desta vida e desta cidade, não posso ser egoista sem deixar um legado para ela. Logo é esse ódio inicial do Punho de Ferro que peço que impeça. Não irá impedir o futuro desta cidade, mas trará um final justo que eu jamáis poderia renegar para aquele povo que tanto sofreu. Afinal o sofrimento deles irá repercutir em todo o globo e apenas dará mais força para nosso verdadeiro inimigo, Set. Assim sendo peço que vós intervenha no passado do século XIV na Bavária e impeça o Amaranto de Ilse Reinegger. Que ela sobreviva através da ilusão do destino a traga paz para a terra que A Serpente almeja corromper para todo o sempre.

    - Este é meu último pedido dado à sua graça de me oferecer dois. E assim sendo aceito meu próprio destino. O fim e o começo, uma nova era. Uma nova luta contra a serpente que sempre espreita. Pelo último olhar ao por do sol do Mar Negro. Este será o meu novo começo, minha nova jornada. Ao lado de minha mãe e de meu amor. Em busca da paz que nos foi roubada.
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    Re: Ato XI - Narrativa de Kiril: Malebolge

    Mensagem por Danto em 29/7/2016, 04:41

    A prole da corrupção escuta todas as suas palavras e para sua enorme surpresa, a semi deusa do Cairo se ajoelha com uma inesquecível felicidade na face, aproximando o rosto do seu, ela lhe beija a testa e responde as palavras finais daquela noite. Palavras que ecoavam pelos tempos, reverberavam entre as realidades e escreviam no âmago do Grande Espírito do Tempo, uma nova verdade.

    -Escuta-me, querido. Está será a última vez que olharas para mim como tua Rainha, tua Deusa. Olharás para mim com os mais puros olhos de um filho, não serei tua Senhora, não serei tua Criadora, tu jamais beberás do meu Vitae. Seremos iguais, seremos eternos, seremos família. Eu não desejo um servo, eu não desejo um amor, eu não desejo um homem, eu desejo um pilar, você é o Pilar que Osíris me deixou. Irei realizar seus últimos desejos, Katarina será abençoada e Isle será salva. E você verá todas essas ações com seus próprios olhos, você estará ao meu lado. Eu lhe darei o poder do meu Vitae, erguerás a Cinco Passos de Caim e caminhará entre os mais poderosos desse mundo, mas nunca se corromperá e nunca permitirá que eu caia em tentações. Você verá Mithras, meu grande Amor, com seus próprios olhos. Verá Helena, minha grande Irmã, com seus próprios olhos. Verá Yaga, minha grande tutora, com seus próprios olhos. Verá Montano, o maior de todos os líderes. Verá Yorak o grande feiticeiro. Verá Lazarus, o maior homem que meus olhos já viram. Verá Yakov, meu guia espiritual. Verá Anis, a verdadeira Brujah. Verá Enkidu, a Fera da Suméria. Verá ur-Shulgi, o pequeno gigante de ébano. E enfim, conhecerá Lamdiel, o devorador de mentes. Caminharás apenas entre os grandes e irá lembra-los do caminho da Justiça, pois você, Kiril, nunca foi destinado a ser o Guru de Berlim. Fostes destinado a ser o Guru do Vitae de Caim.

    Em frente aos seus olhos, o grande véu de santidade da matusalém caia. Revelando a mortal que outrora existiu e caminhou pelas areias do Egito. Seus olhos tinham a grande honra de ver a verdade por trás do mistério, a verdadeira face que tua memória jamais poderia esquecer. A verdadeira Kemintiri. E foi ela que aproximou os lábios do teu pescoço, envolveu os braços carinhosamente ao teu arredor e tomou todo o teu sangue, gentilmente, para quando a morte lhe sussurrasse nos ouvidos, ela derramasse o próprio sangue dentro de teus lábios.
    O poder, a força, a presença, a vontade, a incomparável potência das capacidades da Benção/Maldição de Caim. Você se torna enfim, algo que jamais sonhastes ou previstes. Seria eternamente, Kiril, quinto de seu Sangue, Lorde das Serpentes, Herdeiro de Kemintiri, O Pilar de Osíris.

    A Verdadeira Kemintiri:


    Final de Crônica.

      Data/hora atual: 20/8/2017, 19:50