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Narrativa de Vampiro a Máscara: 20 anos


    Ato VII - Narrativa de Pietra: Provecto I

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    Danto
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    Ato VII - Narrativa de Pietra: Provecto I

    Mensagem por Danto em 26/3/2016, 00:42

    Agosto de 1810, Paris.


    Qual é o limite entre sonho e realidade?!
    A memória seria honesta ou uma necessidade forjada pelo ego?!

    Uma fina chuva caia dos céus, tão fina quanto os pequenos e delicados fios de seda que haviam em seu vestido. Seus pés descalços estavam sobre a grama e seus olhos viam o correr do rio sena, você se sentia jovem, a tonalidade da sua pele ainda não havia avançado tanto quanto sua memória afirmava. O silêncio da noite era fantástico, não haviam prédios, carros, aviões... Apenas a chuva, os animais e a noite da cidade Luz. A sua memória lhe revelava aos poucos as informações, era apenas a sua primeira semana em Paris, havia muito a acontecer ainda e a inocência que você sentia na época não estava mais dentro do seu corpo.
    Afinal, a sua memória a levava a crer que você havia vivido até o anos 2000... Berlim era real, assim como Evangeline e Artur também eram. Mas nada ao seu arredor parecia ser um sonho, como isso seria possível? Você estava a fazer uma viagem no tempo ou uma viagem em suas próprias memórias?

    A chuva seguia a cair suavemente pelo seu corpo, era algo que você adorava fazer, um costume perdido. A chuva era para seu querido Michelangelo, uma fonte natural de inspiração, um fluxo de criatividade divina enviada por Deus para nutrir a alma dos artistas. Sua apresentação ao príncipe François Villon havia ocorrido na noite anterior e você sabia que ainda ficaria muito mais tempo na cidade do ancião, aos poucos a sua percepção antiga se mesclava a sua percepção moderna e após cinco minutos parada naquela chuva calma, sua mente funcionava perfeitamente. Apesar do seu corpo estar mais jovem, sua mente não estava e nem suas capacidades e estudos nos dons de Caim.

    A dor então lhe subia a garganta, o futuro já havia sido contado e alguma criatura havia amaldiçoado você a sofrer tudo novamente. Toda aquela dor, humilhação e vergonha. O medo era sufocante, a chuva parecia ficar mais forte e o frio lhe arrebatava o corpo, o sangue enche seus olhos e o choro fica muito difícil de ser controlado. Ali, você estava sozinha. Ali você sofreria e se machucaria para toda a eternidade...

    -Garota, o que faz sozinha em meio a chuva? Vamos, seria mais prudente não estragar tuas vestes...

    Indagou uma voz feminina familiar. Você então se vira para olhar diretamente para a mulher que estava a falar contigo, uma linda mulher de cabelos castanhos e olhos escuros, usando um vestido típico da época e com um guarda-chuva largo e de material belíssimo, simplesmente impossível de se existir no século XXI. Sua mente lhe dizia que aquela era Anntoinette Larusche, assim era seu nome em Berlim, mas a sua verdadeira e antiga mente lhe dizia que o nome dela era Violetta, a primeira prole de Villon. Uma anciã muito respeitada na corte de Paris e responsável pela sua recepção e adaptação, aliada de longa data de seu Senhor. Ela estende uma mão na sua direção, aguardando a sua reação.
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    Jess

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    Re: Ato VII - Narrativa de Pietra: Provecto I

    Mensagem por Jess em 27/3/2016, 15:06

    A chuva... Cada gota de água que tocava o corpo de Pietra fazia com que a memória e o sonho se mesclassem com força, os olhos castanhos da cainita se perdiam em meio a corrente do Sena, perdida entre memórias e sonhos a sensação de seus pés descalços contra a grama a fizeram suspirar.

    Lembranças de Michelangelo e suas inspirações divinas trouxeram as lagrimas aos olhos da cainita, a velha dor e saudades do homem que havia sido seu mestre voltaram-lhe com força, a solidão do abraço e as saudades dos raios solares, tudo assolava o coração de Pietra.

    " Por que? Tudo isso de novo? Reviver meu inferno não me fará mais sábia ou forte... Isso irá apenas destruir meu coração e mente de novo... Eu já não tenho forças ou tempo para curar estas feridas..."

    A voz de Anntoinette Larusche a chamou de volta de seus devaneios, a imagem da mulher lhe relembrou de seu nome usado em Paris, assim como o papel que o própio Elonzo a mandara executar na corte francesa.

    Forçando seu corpo a agir de forma natural Pietra fez uma longa mensura para então beijar a mão de Violleta.

    - Perdão senhora... Mas a chuva estava tão bela que eu não resisti a seus encantos... Isso não acontecera de novo...
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    Danto
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    Re: Ato VII - Narrativa de Pietra: Provecto I

    Mensagem por Danto em 28/3/2016, 14:44

    Violleta permite graciosamente a sua mensura e o beijo dado em forma de reverência e saudação. A mulher então a observa atentamente, aquele amaldiçoado olhar que você tanto detestava, o olhar crítico a cerca de suas roupas, postura, gestos e existir. O nível de etiqueta desejada na corte de Paris era sufocante e por mais que sua consciência fosse a de uma anciã que você havia se tornado, seus primeiros impulsos estavam tendendo a ser, primeiramente, como eram nessa época. A pequena e bela Violleta então estende o guarda chuva em sua direção, esperando que você o segurasse.

    -Me acompanhe até a Corte das Rosas, você não está vestida propriamente para adentrar a corte do Nosso Príncipe. Francamente senhorita, por ser prole de quem és, esperava muito mais de ti... Saiba que todos esperam muito da mais jovem prole de Elonzo de Milão. Teu irmão está para assumir um Principado. E você?! Entendo que o fascínio pode ser algo difícil, ainda tenho dificuldades para a nossa maldição, mas a senhorita foi enviada para cá justamente para aprender a ser tão grandiosa quanto teu irmão e Senhor são. Afinal, vocês são da linhagem mais importante de nosso clã, Rafael de Corazon é o irmão mais velho de Elonzo e é graças ao teu tio de sangue que a Máscara existe.
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    Jess

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    Re: Ato VII - Narrativa de Pietra: Provecto I

    Mensagem por Jess em 28/3/2016, 22:35

    As palavras severas de Violleta atingiram em cheio a mente jovem e antiga de Pietra, para a cainita fora quase instintivo se retratar como a inocente criança que fora.

    " Não sou mais aquela criança... Não poderei ter de volta aquela inocência... Devo ser quem me tornei..."

    Sorrindo de forma educada Pietra se levantou revelando um pouco mais de altivez do que teria na mesma época, pegando cuidadosamente o guarda chuva a cainita se aproximou mais de Violleta encolhendo educadamente a sua estatura para que o guarda chuva protegesse ambas caso o vento mudasse de direção.

    " Poderíamos ter sido grandes amigas... Quantos problemas minha inocência te causou?!"

    - Peço desculpas Senhora Violleta, ainda não consigo acreditar a tamanha felicidade de poder fazer parte da corte de Villon... Esta honra me é demasiada... E a unica coisa que eu gostaria é poder honrar os ensinamentos de Elonzo e seu nome assim como o de Masdela... Eu estou muito grata por tela como minha tutora...

    Sussurrava Pietra, parte de suas palavras saiam vazias de seu coração, o simples mencionar de seu irmão e senhor eram doloridas para a cainita, mas as lembranças mesmo que escassas da proteção que Violleta dera em sua estadia em Paris eram guardadas com carinho e pesar.
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    Re: Ato VII - Narrativa de Pietra: Provecto I

    Mensagem por Danto em 29/3/2016, 00:45

    Violleta coloca suavemente uma mão nas suas costas e percebendo a diferença de altura entre vocês, sorri e espontaneamente entrega o guarda chuvas na sua mão. Comentando de maneira breve.

    -Segure e não ouse permitir que meu vestido seja molhado, garota...

    Era uma ação simples, a Pietra jovem era perfeitamente acostumada com a fixação de Violleta por sua aparência, pela beleza máxima e pelo obsessão da anciã pela perfeição e simetria. Não era atoa que a mesma sempre se colocou como uma grande entusiasta e apoiadora do seu talento. Mas após os primeiros passos e a sua resposta, algo pareceu errado. Violleta parou de andar, arregalou os olhos e observou assustada tudo que a cercava.

    -Você me chamou de Violleta?!Você falou Masdela?! Estamos em Paris? Mas...Berlim... isso só pode ser um pesadelo terrível. E eu estava convencida de que eles jamais retornariam. Perdoe-me pela confusão, Pietra... Vamos até onde eu falei, digo, vamos até a corte das rosas. Posso dizer que estou extremamente feliz em vê-la jovem novamente, com a esperança nos olhos e as delicadas mãos de uma talentosa artista que sempre fora. Vamos antes que a chuva se intensifique.
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    Re: Ato VII - Narrativa de Pietra: Provecto I

    Mensagem por Jess em 29/3/2016, 13:14

    Pietra sorriu concordando com um leve gesto, em sua juventude a cainita não entendia que toda aquela severidade era apenas o cuidado de alguém que a prezava e mais ainda que só queria o bem de uma criança.

    - Sim minha senhora.

    " Se eu tivesse permanecido ao lado dela... Talvez nada daquilo tivesse acontecido... Nada...
    "

    Andando com cuidado ao lado de Violleta as palavras confusas da mesma sobre Berlim e o futuro fizeram com que Pietra a olhasse, lagrimas surgiam nos olhos da cainita que pela primeira vez em muito tempo poderia falar com a mulher que um dia havia admirado.

    - Para esta pobre criança tu sempre seras Violleta... A grande mulher que comandava a corte de Paris e a mãe e senhora que eu sempre desejei...

    Segurando a mão de Violleta, a italiana apressou o passo tomando cuidado para que a chuva não a molhasse.

    - Algo ou alguém lançou uma terrível maldição em Berlim, nos fadou a um sonho... Não sei dizer quem mas era velho, muito velho Mia senhora... Quem o fez queria que enxergássemos os erros do passado... Eu temo em dizer que talvez eu tenha sido seu erro... Peço perdão por ter sido tão displicente em minha juventude e inocência...

    Lagrimas teimavam em escorrer pelas faces coradas de Pietra, a cainita por sua vez não se importava em limpa-las, seus olhos se voltavam para Violleta esperando que a ira da mesma recaísse sobre si, havia um tom de aceitação vinda da mais alta, aceitação pelo o que seus atos devem ter causado a Violleta.

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    Re: Ato VII - Narrativa de Pietra: Provecto I

    Mensagem por Danto em 29/3/2016, 17:09

    Violleta escutou você, parada debaixo do guarda chuva que agora estava sendo segura pelas suas mãos. Os olhos dela claramente olhavam as suas expressões faciais e ela se inclina, ficando quase na ponta dos pés para finalmente alcançar a sua face com as costas da mão esquerda, tomando a iniciativa de limpar o sangue que escorria dos seus olhos, subindo a mão até a parte superior da sua bochecha.

    -Seu futuro seria tão brilhante... O meu futuro seria tão brilhante... Seriamos brilhantes juntas. Mas você escolheu a luxúria, sem ter ao menos a empatia com os outros que se dedicaram à sua instrução...

    As palavras de Violleta eram doces, mas não pareciam em nada como as palavras que você costumava ouvir da própria, ao menos não era assim que você era capaz de se lembrar dela. Quem falava era claramente a mulher que estava em Berlim ao lado do Príncipe dos Justos. Os olhos dela se avermelhavam e uma fina lágrima de sangue escorre do olho direito da anciã, a imagem era inquestionavelmente inesquecível, a profunda tristeza de alguém que sofreu pelos seus erros, se você havia sido humilhada e expulsa da corte, quais terrores e humilhações o próprio príncipe não aplicou a sua prole?! O fascínio do clã Toreador então arrebatava a sua vontade com uma força jamais sentida por ti, seus olhos estavam a observar uma beleza melancólica, cujos olhos ensanguentados pela dor, se fechavam. Mas o fascínio se rompia com a mudança da expressão, a tristeza era subjugada pelo ódio.

    -Rezei pela sua desgraça. Roguei pragas contra tua alma. Desejei a tua morte e a tua dor...

    As palavras dela era ríspidas, os olhos dela se abriram com ferocidade e naquela fração de segundos você sabia que a fúria da anciã seria imposta sobre o seu corpo e alma. A mão direita dela se fecha em um soco inesperado e brutalizado pela raiva de uma alma atormentada e mergulhada em pranto. Os olhos dela vertiam sangue em um choro incontrolável, os lábios dela tremiam e soluçavam, mas o punho direito acertava com truculência o seu peito. Em uma metáfora a dor que ela sentia no próprio coração.
    O punho dela se choca contra seu tórax, a força do sangue de Caim e a potência dos anciões, arremessam seu corpo para a margem do rio sena, o guarda chuvas se perde no ar e cai sob a grama molhada e a anciã corre na sua direção, em prantos.

    [Off: Faça um teste de vigor para absorver o dano do soco.]
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    Re: Ato VII - Narrativa de Pietra: Provecto I

    Mensagem por Danto em 29/3/2016, 17:09

    O membro 'Danto' realizou a seguinte ação: Rolagem de Dados


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    Re: Ato VII - Narrativa de Pietra: Provecto I

    Mensagem por Jess em 29/3/2016, 18:35

    O toque suave e gentil de Violleta, as palavras e a lagrima que escorria pelo rosto da mesma fizeram com que o fascínio viesse, aquela dor tão similar quebrou as defesas de Pietra alastrando-se para dentro do coração da cainita.

    " Eu nunca imaginei... Como pude ser uma criança tão inocente durante tanto tempo... Como?"

    Quando a raiva transfigurou o rosto de Violleta, Pietra apenas aceitou o que ocorreria. A dor em seu tórax desfez a postura da italiana, a força imponente da mais baixa fora o suficiente para que todo o corpo de Pietra se contorce-se em dor ao cair no chão, mesmo assim não houve reação.

    Ouvindo o choro de Violleta e seus passos Pietra se ajoelhou na grama, as margens do rio perto de si a faziam se lembrar de Shakespeare e sua Ofélia, a tragédia havia se abatido por completo ao destino de Pietra.

    Ajoelhando-se para encarar a mais baixa a cainita suspirou ao dizer:

    - Por favor minha senhora... Se isso aliviar de algum modo toda a dor que eu lhe causei continue... Eu não esboçarei nenhuma reação contra isso... Mas saiba que eu nunca quis vê-la sofrer... Eu só não era feita para essa corte... Não fui moldada para servir aqui... E no fim me entreguei a Evangeline para que nossas bestas não devorassem uma a outra... Eu teria a matado Violleta... e seria o pior monstro que esta corte poderia criar...

    " Eu fui o erro dela... Tenho toda a certeza... Nunca receberei seu perdão, mas sua dor já me é o suficiente..."

    Off: Vigor 2
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    Re: Ato VII - Narrativa de Pietra: Provecto I

    Mensagem por Danto em 29/3/2016, 18:35

    O membro 'Jess' realizou a seguinte ação: Rolagem de Dados


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    Re: Ato VII - Narrativa de Pietra: Provecto I

    Mensagem por Danto em 29/3/2016, 22:55


    As águas do sena trepidavam a cada passo que a poderosa anciã dava em sua direção, a fúria de um monstro gigantesco habitava aquele pequeno e delicado corpo, as presas saltavam sobre os lábios inferiores com tanta selvageria que chegavam a rasga-los, o sangue vertia pelo queixo e misturava-se a água fina da garoa que caia dos céus.
    Um relâmpago forte branda e a profundeza negra dos céus é iluminada, assim como a própria face da besta de Violleta dominando completamente a face da bela e mais antiga prole do Príncipe das Rosas.

    -Você me diz, que quem fez essa maldita tormenta ressurgir queria que enxergássemos os erros do passado?! De joelhos pede pelo meu perdão... Criança egoísta! Enquanto aos meus joelhos que caíram por ti em frente a Villon, rogando pelo teu perdão!?

    A mulher então usa da rapidez do vitae Toreador para surgir na sua frente. Segurando a sua face com as duas mãos e gritando com todas as forças dos pulmões. Você sente os dedos dela pressionando os ossos da sua cabeça, não havia uma intensão de quebra-los, mas haviam claramente uma intenção de machucar a sua pele, sua carne e um desejo incontrolável de destruir a sua face. A sua imagem despertava uma dor imensurável na alma de Violleta.

    -ENQUANTO AOS MEUS JOELHOS?!

    Em seguida ela solta a sua face para desferir um tapa com as costas da mão esquerda. Seus olhos eram capazes de sentir o desejo mais puro de ódio correndo dentro do corpo da anciã, mas também conseguiam ver o autocontrole jamais visto, ela estava no controle da própria besta e mesmo enfurecida e aos prantos, ela não parecia ser capaz agredi-la com a intenção de mata-la.

    -Você encontrou amor! Você encontrou tudo que procurava! Eu encontrei a fúria do SEU senhor, do MEU senhor! O desdem de todos que DEVERIAM se curvar em minha frente! Não há palavras feitas pelos homens que traduzam o meu ódio! Mas eu não consigo... eu não posso...

    As palavras dela começam fortes e cheias de gritos e força, mas ao final se mostram fracas, assim com a mão dela que ainda segurava seu rosto, deixava de imprimir dor sobre os ossos da sua face, até o ponto de solta-la completamente. Para sua maior surpresa, a mulher cai de joelhos a sua frente. Levando as mãos ao rosto e mergulhando no mais profundo choro. O sangue dela escorria por entre os próprio dedos, pelas mãos e braços. Diluindo-se suavemente na água e gotejando no chão para enfim manchar a grama da encosta do rio de vermelho.

    -Eu me odeio por não ser capaz de arrancar a sua cabeça, de não ser capaz de feri-la da maneira que fui ferida... Eu não posso... Pois uma criança jamais pode ser punida pela incompetência de seus responsáveis. Uma artista não pode ser destruída por causa de seus desejos e necessidades... eu não posso, eu não sou bestial o suficiente... Como você pode ser um monstro Pietra? Como podes ser um monstro tão cruel assim!?
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    Re: Ato VII - Narrativa de Pietra: Provecto I

    Mensagem por Jess em 29/3/2016, 23:38

    De joelhos Pietra encarou a fúria da pequena mulher a sua frente, a própria natureza parecia tão enfurecida quanto o colosso que Violleta revelava ser.

    Sem piscar a cainita viu o corpo distance se aproximar em uma velocidade desumana, por de baixo do veu divino nenhuma das duas era mais humana, mas a fúria o ódio e a dor que transpareciam de Violleta deixavam claro que o monstro era Pietra.

    " Malditos... Porque ela... Porque a fizeram sofrer... Porque não me destruíram quando tiveram a chance... Que maldita piada do destino é essa?!"

    A dor que se fez presente quando Violleta a agarrou apenas fez com que Pietra a encarasse sem expressão ou menção de se soltar, apenas as lagrimas corriam pelo rosto da mesma enquanto cada palavras era cravada em fogo em seu coração.

    Recebendo o tapa Pietra pela primeira vez gemeu, a mais nova nunca imaginaria a dor que havia causado, durante os anos logo apos seu expurgo o medo havia dominado o coração de Pietra fazendo com que esta ignorasse tudo a sua volta.

    Quando o corpo de Violleta caiu a sua frente em prantos Pietra levou algum tempo para compreender o que estava acontecendo, a mulher forte com toda sua ira divina havia desabado enquanto a própria Pietra se absterá de qualquer tentativa de defesa.

    - Eu me transformei nesse monstro no dia que fui abraçada... Perdi minha fé no mundo e em minha própria arte.... Eu não tive tudo que procurei... Não sem pagar com meu sangue... Mesmo assim... Eu era jovem, não entendia seus cuidados... Eu nunca quis ser um monstro... Não queria ter sido exposta como uma boneca de cera na vitrine... Eu só fui uma obra mal acabada exposta no castelo perfeito de Elonzo... Ele foi o monstro que roubou o homem que eu amei... me roubou a chance de morrer... De ser mãe... De faze-la feliz minha senhora... Eu quiz... Eu quis muito ter encarando o julgamento solar... Mas fui fraca... Eu peço seu perdão porque nao posso mais conviver com essa dor... essa maldita dor que corre meu ossos e meu corpo...

    As palavras que começaram em um sussurro aos poucos ganhavam força, transformando-se em um lamento real, a cada palavra novas lagrimas brotavam enquanto nenhum esforço era feito para curar as feridas infligidas por Violleta.
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    Re: Ato VII - Narrativa de Pietra: Provecto I

    Mensagem por Danto em 30/3/2016, 15:20


    O vestido belíssimo e sempre imaculado de Violleta estava encharcado de água e sangue, com manchas de terra e grama nos joelhos, era algo que você nunca pensou em ver em sua vida inteira, pois a anciã sempre representou a máxima da educação da corte de Paris. Sempre coerente, tradicionalista e equilibrada.
    Tudo que você havia aprendido e construído em sua mente sobre a imagem de Violleta rachava e se fragmentava na sua frente, sem nenhuma censura, era o ódio desnudo e sincero. A mais pura e agonizante dor de uma mulher, de uma artista, de uma musa e acima de tudo, de uma alma pura.
    O corpo dela termia em frente ao seu, o choro parecia finalmente terminar e a pequena francesa levantou a cabeça para olhar diretamente para o céu. A chuva limpava o sangue de sua face e o espalhava por toda a extensão de seus membros e vestes, mas ela simplesmente não se importava. Encarando o negro céu da cidade de Berlim, a voz dela se fez novamente presente, no mais arcaico e belo francês.

    -Você sabe, Pietra, o ódio deve ser sempre exposto por nós através de ações. Fazemos dessa forma por sermos seres de sangue quente e apenas os de sangue frio possuem veneno... Sempre me apaixonei pelo calor do vermelho, pelo tom amarelo da auréola dos anjos... Mas os girassóis... pelos céus como eu amava me deitar entre eles, como eu os amei. Apenas Deus é testemunha da saudade que sinto de caminhar sob o calor da grande estrela, descalça e a colher girassóis.

    Os olhos dela então finalmente são capazes de olhar diretamente para você. Ela estende as duas mãos na sua direção, mantendo-as esticadas no ar frio da chuva da cidade Luz, seus lábios sorriem com a suavidade de um anjo e as palavras são então pronunciadas no seu idioma natal, com a poesia que apenas a alma de uma artista verdadeira era capaz de criar.

    -A alma do homem é como a água: Do céu vem, ao céu sobe e de novo tem que descer à terra, em mudança eterna.
    Corre do alto, rochedo a pino, o veio puro. Então em belo pó de ondas de névoa desce à rocha liza, e acolhido de manso, vai tudo velando, em baixo murmúrio, lá para as profundas.
    Erguem-se penhascos de encontro à queda, vai espúmando em raiva, degrau em degrau para o abismo.
    No leito baixo, desliza ao longo do vale relvado, e no lago manso nutre seu rosto e os astros todos.
    Vento é da ausência o belo amante; Vento mistura do fundo ao raso, ondas 'spumantes. Alma do Homem, és bem como a água! Destino do homem, és bem como o vento!


    A declamação do poema se aprofundou na sua mente, haviam nele tantos significados, tantas verdades e sentimentos a cada letra. As estrofes falavam sobre o ciclo natural da alma e do destino dos homens, de suas dores, de seus caminhos e de como sempre eram capazes de encontrar um fim para obter um recomeço. Retomando ao francês, Violleta termina.

    -Você é um monstro porque eu assim permiti. A tua dor é a minha dor, a tua humilhação a minha. Você era fraca e eu forte, meu corpo permaneceu de pé enquanto as punições destinadas à você eram atiradas contra ele. Eu fiz isso por ter perdoado você Pietra, a duzentos anos atrás minha querida e inocente criança...
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    Re: Ato VII - Narrativa de Pietra: Provecto I

    Mensagem por Jess em 30/3/2016, 23:38

    De frente a Violleta, Pietra sentou por cima das pernas seus olhos e ombros se mantinham baixos no mais profundo sinal de respeito. Aquela imagem maculada nao combinava em nada com a mulher que Pietra havia conhecido em Paris, mas ali nem uma das duas já eram as mesma.

    As primeiras palavras de Violleta fizeram com que Pietra voltasse a levantar os olhos, a paixão compartilhada e até mesmo a saudades da flor amarelada se gravaram com força na mente da mais nova. Um sorriso pálido e sincero se formou nos lábios de Pietra.

    " Como seu coração conseguiu se manter tão caridoso? Como voce pode sofrer em meu lugar e me perdoar... Porque eu não a tive como senhora por mais tempo..."

    Sentido cada mudança no timbre Violleta enquanto esta declamava o poema, Pietra enxugou suas lagrimas, seus olhos castanhos miravam a mais baixa como os olhos de um eterno aprendiz.

    Colocando seu rosto entre as mãos estendidas da cainita Pietra beijou as mesmas mãos que momentos antes havia causado feridas em seu corpo, baixo e murmurante a cainita se agarrava delicadamente aquele toque quase maternal.

    - Tu és a dama que permeá meu sonhar, trazes contigo toda a inocência em teu andar, mas teus olhos vasculham o infinito e teu sorriso carrega o campo florido... Abra tuas pétalas e deixe que o vento leve... Seu amor e ardor... Deixe que ele toque o infinito e em troca te devolva meu amor...

    Recebendo o perdão de Violleta, a mais nova sorriu, já não era mais uma criança e sua inocência há muito se perdera. Mas a frente do pequeno colosso que Violleta era toda a pureza voltava a despertar, como se nunca tivesse abandonado o coração de Pietra.

    - Por muito tempo eu tive medo... Isso me deixou cega Mia Senhora... Mas rogo-lhe que se neste sonho eu voltar a ser expulsa... Rogo-lhe que deixe que me firam... Que me machuquem e destrocem meu corpo... Eu não poderia me perdoar em vê-la ferida em meu lugar... Erramos uma com a outra... E se eles a desprezaram nunca mereceram sequer seu importar... Por favor...
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    Re: Ato VII - Narrativa de Pietra: Provecto I

    Mensagem por Danto em 31/3/2016, 00:02

    Violleta inclinou seu pequeno corpo para frente e beijou-lhe a testa ao final de suas palavras. Um gesto tão carinhoso que jamais foi feito por seu Senhor, que jamais foi feito por seu irmão e nenhum outro parente de sua linhagem cainita. A doce Violleta olhou com os olhos de uma mãe que observavam uma filha perdida a encontrar seu próprio caminho. Havia orgulho e ternura onde antes havia ódio e dor. Sua memória então a fazia lembrar da frase simples de seu grande amor italiano quando teu coração ainda batia vivo em seu peito:
    "O amor e o ódio são frutos da mesma árvore, frutos que sempre nascem da mesma arvore e são nutridos pelas mesmas raízes. Caso no primeiro dia você colha o ódio, no segundo dia o fruto do amor estará a sua espera, pois a fome de nossas almas é infinita e desses frutos precisa para sobreviver"

    -O destino nos fez assim, mas alguém nos colocou frente a frente. Esse alguém terá eternamente a minha gratidão, mas acerca de teu pedido... Jamais poderei concordar com o mesmo ou sequer permitir que ele aconteça. Se o meu erro foi você, o seu erro certamente será fugir e nós duas estaremos lá, diante teu Senhor e da corte. Nós duas lutaremos por nossa liberdade desse pesadelo.

    A chuva então finalmente cessa. As nuvens começam então a correr com ferocidade no céus negros de Berlim. O cenário medieval começa a se modificar como se fosse um filme sendo exibido em rotações aceleradas, frame após frame, a cidade de Paris se expandia ao redor de vocês duas e ao redor da margem do grandioso rio. Os cem primeiros anos que você viveu na Cidade Luz passavam em segundos diante o seus olhos... O pior estava por vir, mas você não enfrentaria isso sozinha dessa vez...

    [Off: Ultima ação para o final do Ato]
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    Jess

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    Re: Ato VII - Narrativa de Pietra: Provecto I

    Mensagem por Jess em 31/3/2016, 00:56

    O beijo, aquele gesto tão singelo e maternal fez com que o coração de Pietra voltasse a bater incontrolavelmente, havia tanto amor e carinho que todo o corpo da cainita estremeceu.

    As palavras de Michelangelo depois de muito tempo se faziam certas, sem se importar com etiquetas Pietra puxou o corpo diminuto de Violleta para junto do seu entrelaçando-a em um longo abraço, um beijo suave foi depositado nas faces da mesma.

    - Mia senhora... Obrigada... obrigada... Tu és a maior rosa que poderia habitar qualquer jardim e sobre tuas raízes se encontram tesouros inestimáveis... Teras sempre o meu amor de filha e o mais profundo desejo de ter sido sua criança... Não ousarei nem por um instante fraquejar nesse teste... Nunca poderia me perdoar se eu o fizesse...

    " Nem mesmo o monstro de Elonzo poderia acabar com o desejo de vê-la bem... Ahhh Violleta se eu a tivesse tido como senhora de sangue nada disso teria acontecido..."


    Soltando o corpo de Violleta a mais nova beijou a testa da mesma antes de deitar sua cabeça no colo desta. Um tremor de medo se apossou quando as imagens de seus anos brincavam diante de seus olhos indicando que a sombra do monstro de Elonzo e sua corte de espinhos se aproximava.

      Data/hora atual: 19/8/2017, 06:26